Relato escrito por: Will Mesquita (Membro do COA Brasil).

Confesso que, lá atrás em 2013, quando comecei a fotografar aves não imaginava que isso se tornaria uma parcela tão importante da minha vida. Passarinhar virou mais que uma válvula de escape – para as crises de ansiedade de 6 anos atrás – uma necessidade para o equilíbrio e a paz.

Não sou exímio conhecedor da taxonomia ornitológica, cursei grande parte do curso de Biologia e trabalhei com mamíferos (carnívoros, a maior parte do tempo), então – uns 2 anos atrás – quando numa conversa após uma passarinhada escutei o amigo (e biólogo) Marcelo Lemos falar que as aves preferidas dele, que ele mais tinha vontade de fotografar eram os ralídeos, procurei nas fichas do meu banco de dados mental e naquela confusão de informações o máximo que resgatei foi a Saracura-três-potes. Lembro bem do Marcelo descrevendo uma ida dele à Arari, com o guia Thiago Rodrigues e das histórias das sanãs nos arrozais.

Naquela altura eu já possuía alguns registros de ralídeos: um Frango-d’água-azul (Porphyrio martinicus) (fotografado da janela de um ônibus) e um – pasmem – Turu-turu (Neocrex erythrops). Esse Turu-turu foi fotografado em dezembro de 2013, no meio do expediente (intervalo do almoço) na Fazenda Chapada, em Barra do Corda-MA, e foi juntamente com o registro da Viviane Luccia (guiada pelo já mencionado Thiago Rodrigues, em Arari) publicado em dezembro de 2013 um dos primeiros registros de Neocrex para o Maranhão no Wikiaves. Confesso que, até então, era uma família qualquer dentre tantas outras que eu buscava conhecer e fotografar.

Bem ali, no meio daquele papo, o ‘bichinho das sanãs’ havia me picado.

Iniciei uma busca não-confessa pelos representantes daquela família nas áreas em que costumava passarinhar. O Maranhão é um estado enorme e,  basicamente, um corredor de transição – os mais antigos falavam ‘ecótono’ –possuindo áreas de Cerrado, Restinga, Manguezais, Amazônia e um Pantanal (!). As opções eram muito variadas e a questão da facilidade de acesso dominou a busca, e assim a Saracura-três-potes (Aramides cajaneus), a Saracura-matraca (Rallus longirostris) e o Frango-d’água-comum (Gallinula galeata) tornaram-se os ‘alvos’ mais buscados nas passarinhadas de fim de semana.

Saracura-carijó (Rallus longirostris) – Foto: Will Mesquita

O grande prequel dessa história foi quando decidimos que iríamos incluir Arari entre as cidades em que faríamos a expedição do Big Day de maio de 2018, combinamos (eu, Marcelo Lemos e Leonardo Victor) de sair de São Luís, passar por Bacabeira e Arari e finalizar com uma corujada em São Benedito do Rio Preto. Áreas em que cada um de nós, isoladamente, já havia passarinhado e que tinham potencial para gerar bons registros. Apenas o Marcelo conhecia Arari, numa visita anterior que gerou vários lifers. 

Aquele foi um Big Day sensacional. O local que menos conhecíamos era Arari, mas aquela cidade nos impressionou tanto pelo aspecto da cheia dos rios e lagoas que cancelamos o próximo ponto e esticamos a estadia por lá até o final do Big Day. Mas nada, neca, zero sanãs. Confesso que, na minha ignorância, achava que bastava estar em Arari para registrar ralídeos, ledo engano.

Arari nos oferece um campo de plantio de arroz – a cultura dominante na região – dentro da Amazônia Legal maranhense e na porta da baixada (o Pantanal do Maranhão), um combo imperdível. Em conversas, estudos e a necessária consulta ao guia local, aprendemos que havia época certa para esses registros, a época do arroz, uma espécie de atrativo para essas aves.  No entanto, como bem descrito pelo Marco Crozariol, há que se respeitar o ciclo de plantio dessa cultura e – principalmente – a situação da drenagem na área da plantação. O certo é que tentamos deixar tudo acertado para voltar quando fosse mais propício, mas a agenda do Thiago estava – pra variar – cheia, e ficamos na espera para uma data disponível para vermos as sanãs de Arari.

No intervalo de tempo entre a expedição do Big Day e nossa programação para Arari, muitas passarinhadas, leitura e conversas com outros amigos birders criaram uma sensação de antecipação por uma ave em especial: Laterallus jamaicensis, a Sanã-preta.

Lembro bem de ter procurado no “Ornitologia Brasileira” (Sick, 1997) de um amigo e, com espanto, ter lido a única referência à então Açanã-preta (como era chamada):

“15cm. Uma fêmea foi encontrada pela manhã do dia 3 de novembro de 1994, após ter possivelmente se chocado contra uma janela iluminada de um prédio do Campus de Pesquisa do Museu Goeldi, Belém, Pará. Este primeiro registro para o Brasil (…)”.

Fiquei ainda mais ansioso por imaginar que se tratando de uma ave dita ‘fantasma’ no mundo da observação de aves no Brasil, as chances de não vermos nenhum indivíduo por lá seriam enormes. Até aquela data haviam registros dessa espécie em apenas 4 municípios, sendo que em apenas 3 tinham sido feitas fotos da ave. Eu não tenho receio em afirmar que não chega a uma centena o número de pessoas que já viram Laterallus jamaicensis na natureza em território brasileiro.

Saímos para encontrar o Thiago em Arari com uma baixa no elenco, justamente o Marcelo, que havia começado toda a história de sanãs e de Arari, teve que ficar em São Luís para receber familiares. Fui junto com o Leonardo Victor e encaramos as 2 horas e meia de asfalto (pouco mais de 160 km), e assim em 8 de dezembro, às 7:30h já estávamos fazendo registros em Arari.

Comento até hoje com o Thiago e com o Leonardo que não estava preparado para aquilo. Thiago veio com um banquinho, uma espuma de colchão e um blind, entramos num arrozal (registramos Socoí-amarelo – Ixobrychus involucris e Saracura-carijó – Pardirallus maculatus… sim, é assim em Arari) e paramos no local indicado por ele. Ele entregou a espuma para um e o banco para o outro e explicou aonde deveríamos sentar, para onde apontar e, àquela altura, eu estava achando tudo uma bruxaria (‘como assim tu sabes de onde ela vem e para onde ela vai?’). Lembro que ele arrumou uma caixinha de som e espalhou a ‘recompensa’ – reforço positivo para garantir novas aparições – e não consigo lembrar que playback, mas em instantes e por alguns instantes algo mágico aconteceu.

Primeiro a cabeça saindo da vegetação e eu com os olhos ardendo de suor e sem acreditar que poderia ficar melhor, ela saiu inteira e atravessou, o que eu chamo até hoje de “A passarela dos ralídeos” – Arari Fashion Week – a área limpa no arrozal. O “problema” é que não pára por aí, quando a Laterallus jamaicensis saiu, a Laterallus exilis entrou me deixando numa mistura de confusão e incredulidade (‘É outra, é a mesma? Éguas, é a Sanã-do-capim!!!’), essa demorou mais tempo e até pudemos observar vocalizando e petiscando até que, no espaço de um instante ela foi expulsa por um Neocrex erythrops, uma ave que eu nunca achei que consideraria grande, mas que perto das Laterallus apareceu enorme no viewfinder da câmera. Esse sim, dominou a passarela e desfilou sua beleza, vocalizando sempre.

Em choque eu fiquei paralisado e só fui voltando a mim para soltar o meu bordão para esses momentos: “Já podemos ir para casa, a passarinhada acabou!” e, incrédulo, escutar do Leonardo que ele não tinha conseguido fazer a foto da L. jamaicensis por que ele esquecera de apertar o obturador quando ela apareceu de tão hipnotizado que ficou.

Sanã-preta (L.jamaicensis) – Foto: Will Mesquita
Sanã-preta (L.jamaicensis) – Foto: Will Mesquita
Sanã-do-capim (L.exilis) – Foto: Will Mesquita
Sanã-do-capim (L.exilis) – Foto: Will Mesquita

Os fatos, meus amigos e minhas amigas, é que num espaço de menos de 10 minutos, havíamos registrado 3 dos ralídeos mais buscados por observadores de aves do Brasil no mesmo ponto, sem mudar de posição e sem nem precisar chegar a 300mm, as aves estavam a menos de 2 metros da minha câmera.

Muito pouco posso acrescentar a esse relato, além do fato de ainda ter registrado Saracura-carijó (Pardirallus maculatus) e Sanã-amarela (Porzana flaviventer) (essa no dia seguinte) e ter observado Socoí-zigue-zague (Zebrilus undulatus) e Socoí-vermelho (Ixobrynchus exilis) nesse local mágico.

Deixo para vocês, a legenda do meu maior prêmio nessa jornada:

“Algumas aves são impactantes. Lembro como fiquei quando me deparei com o Falcão-peregrino pela primeira vez, lembro da emoção de quando o Pica-pau-do-Parnaíba veio em dupla pra cima de nós em Caxias e hoje, presenciei algo impressionante: uma passarela de ralídeos, e a Giselle Bündchen da turma, a top das tops, Laterallus jamaicensis e toda sua graciosidade (…) Arari nunca decepciona.”

Sanã-amarela (Porzana flaviventer) – Foto: Will Mesquita
Sanã-amarela (Porzana flaviventer) – Foto: Will Mesquita
Socoí-amarelo (Ixobrychus involucris) – Foto: Will Mesquita
Socoí-amarelo (Ixobrychus involucris) – Foto: Will Mesquita
Turu-turu (Neocrex erythrops) – Foto: Will Mesquita

Um comentário em “Arari, a passarela dos ralídeos

  1. Arari é impressionante, é mesmo uma passarela de ralídeos como você diz, Will, local onde eu conheci muitas aves inclusive a sanã-preta. Relato bacana!

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