Relato escrito por: Priscilla Diniz (Membro do COA Brasil).

Junto às araras e aos papagaios, os tucanos formam um grupo icônico da fauna neotropical. Suas formas são elementos destacados nas estampas com temáticas tropicais em agendas, roupas e até mesmo forros de mesa. Eles inspiraram esculturas e alguns telefones públicos, viraram pingentes e brincos que adornam corpos de todas as idades, e em madeira são clássicos souvenires adquiridos por quem passa pelo Mercado Municipal Adolpho Lisboa em Manaus.

Também pudera, uma forma extravagante delicadamente coberta com as mais vivas cores são mesmo dignas de notoriedade. Seriam os tucanos os “influencers” do mundo das aves? Talvez. Até mesmo pela política eles já circularam, pobrezinhos.

Deixando todos os devaneios de lado, vamos abordar um pouco da parte técnica e não vai doer, promessa de dedinho! 

Os tucanos e seus primos menores, que conhecemos como araçaris e saripocas, pertencem à Família Ramphastidae e somam, atualmente, 50 espécies ao longo da área de distribuição do grupo e no Brasil podemos encontrar 22 delas. São aves arborícolas de porte médio a grande (30-61 cm), que comem frutas, sementes e podem predar insetos, pequenos vertebrados e ovos (você já deve ter visto um Tucanuçu, Ramphastos toco, levando uma “carreira” de um Bem-te-vi, Pitangus sulphuratus, por aí e este é um motivo).

Na maioria do tempo, boa parte das espécies vivem em grupos, mas como nada que envolva biologia é exato, há exceções. É justamente uma dessas exceções que tem me motivado a andar na margem direita do Rio Negro, a Saripoca-de-bico-castanho (Selenidera nattereri).

Apesar de ser mais tímido que seu primo barulhento, o Tucano-de-papo-branco (Ramphastos tucanus) que dá à Amazônia o som característico das primeiras horas da manhã, este pequeno ranfastídeo (32-33 cm) é igualmente belo. Às vezes tenho a impressão de que algumas aves tomam banho no arco-íris, tamanha é a variedade de cores que nossos olhos humanos são capazes de enxergar nelas, e a Saripoca-de-bico-castanho se encaixa nisso.

O bico é vermelho com manchas azuis, e pelas cores podemos saber se estamos observando um macho ou uma fêmea, pois machos possuem a cor preta na cabeça, garganta, pescoço, mento e peito enquanto nas fêmeas essas partes são castanhas. No mais, há uma variedade de verdes, amarelos, marrons, cinzas, vermelhos e azuis distribuídos em pouco mais de 30 centímetros e 150 gramas de Saripoca.  

Eu citei o primo barulhento, mas não poderia deixar de mencionar que a Saripoca-de-bico-castanho detém uma voz um tanto peculiar. Ela emite um som gutural/rouco, que aos ouvidos menos treinados pode, inclusive, assemelhar-se ao coaxar de um sapo. E um detalhe importante: essa voz pode ser escutada na planície amazônica, ao norte dos rios Solimões e Amazonas, principalmente em matas de solo arenoso nas proximidades de pequenos igarapés.

Agora podemos partir para o que interessa: Cadê essa Saripoca, Priscilla? 

Registros recentes foram feitos em Novo Airão e, coincidentemente, minha base de coleta de dados para o mestrado fica na mesma cidade. Claro que, secretamente, planejei encaixar uma busca pelo “ranfastídeo perdido” em cada espaço de tempo disponível entre os trabalhos de campo. 

Durante cinco dias acordei antes das 4:00 da manhã, pois às 05:00 eu já estaria na “luxuosa” embarcação, que nos serviria durante todo o tempo de trabalho, rumo a uma inexplorada trilha na terra firme que poderia guardar preciosidades aladas que eu ansiava conhecer.

No primeiro dia chegamos à cidade pouco antes do almoço e após resolver burocracias, nos acomodarmos e comprar gasolina, que o motor de 30 HP do barco bebeu sem qualquer piedade dos nossos bolsos, rumamos para o ponto criteriosamente escolhido no mapa que estudamos ainda em Manaus (devo aqui ressaltar que não havia uma trilha aberta, o trabalho seria feito do zero).

Neste momento éramos 6 – eu, meu orientador, e quatro mateiros (um deles era, também, nosso “piloteiro”). Chegamos ao local e já entendi que meus dias seriam um tanto quanto cansativos – me vi diante de um barranco alto e íngreme, e esse seria só o começo.

Depois de vencer o barranco sem sofrer nenhuma queda, apenas com algumas picadas de formigas nas mãos que buscavam ponto de apoio em qualquer coisa na posição vertical, entrei na mata ouvindo alguns sons familiares, como a voz do Udu-de-coroa-azul (Momotus momota) e da Choca-murina (Thamnophilus murinus), e sorri sozinha enquanto o suor fazia cócegas escorrendo pelas minhas costas.

Não adiantava buscar nada nessa hora, pois logo o estalido produzido pelos facões, enquanto abriam caminho pela vegetação, começou a silenciar moradores dali. Não passava muito das 15:00 horas, mas o sub-bosque estava ficando mais escuro que o esperado e isso significava uma coisa preocupante: chuva. Ela não demorou muito e logo estava lá mostrando quem realmente mandava no pedaço.

Corremos para terminar de instalar nossas redes-de-neblina e descemos aquele barranco, lutando bravamente para manter-nos sem quedas pelo menos no primeiro dia. O trajeto até a sede do município não foi dos mais agradáveis, pegamos o que é chamado por aqui de banzeiro, e ele testou a capacidade de amortecimento dos meus glúteos contra o banco do barco. Foi como atravessar uma estrada esburacada, a 100 km por hora em um carro sem cinto de segurança e sem janelas.

Já dá pra imaginar que dormi bem rápido depois de tomar banho e organizar as coisas para o dia seguinte, não é mesmo?!

O segundo dia se mostrou mais amigável e não ostentava nuvens que pudessem nos preocupar. Antes do amanhecer as redes-de-neblina, instaladas na tarde anterior, já estavam abertas e eu tive meu primeiro momento oportuno, mas a voz que eu procurava, em meio a tantas que ouvia naquele momento, não estava lá.

Nem mesmo quando reproduzida através do meu celular. Cadê a Saripoca? Entre todos os momentos de trégua nos trabalhos das redes eu tentava obter alguma resposta, mas nada atendeu ao meu chamado. Em compensação, algumas espécies muito legais caíram nas redes, como o Estalador-do-norte (Corythopis torquatus), a Mãe-de-taoca-bochechuda (Gymnopithys leucaspis), o Vite-vite-uirapuru (Tunchiornis ochraceiceps) e o Uirapuru-de-chapéu-azul (Lepidothrix coronata).

Vite-vite-uirapuru (Tunchiornis ochraceiceps)
Estalador-do-norte (Corythopis torquatus)

O terceiro dia seguiu com clima amigável. Novamente as redes estavam abertas antes do amanhecer e apesar de, mais uma vez, a voz que eu quisesse escutar seguisse calada, ouvi uma outra voz que muito me interessava, era uma Choca-pintada (Megastictus margaritatus).

Torci secretamente pra ela alçar voo rumo à rede, pois eu adoraria contar com ela no meu banco de dados (que só inclui aves vivas, gente!). E meu pedido foi atendido, na próxima revisão estava lá um lindo macho bravo e sem entender muito bem no que tinha se metido.  E para alegrar mais ainda meu dia de capturas, peguei três indivíduos de Papa-formiga-de-topete (Pithys albifrons) e pude finalmente conhecê-lo bem, já que durante dias normais de observação o máximo que vi foram vultos de um topete branco. Mas o terceiro dia findou e não consegui responder onde estava a Saripoca.

Papa-formiga-de-topete (Pithys albifrons)

O quarto dia foi um pouco mais difícil para mim, o cansaço começou a cobrar seu preço, mas eu não me dei ao luxo de dormir mais umas horinhas. Choveu muito na noite anterior e o local de acesso dos outros dias foi fechado por uma árvore recém-caída.

Atracamos um pouco mais à frente, calculei mal o local de colocar o pé para descer do barco e foi assim que eu afundei. Nesse processo de cair na água, evitar que a mochila se molhasse e tentar não afundar ainda mais, me machuquei um pouco, mas não havia tempo para nada, muito menos para entender o porquê da minha perna esquerda estar doendo, ou de reclamar da ardência provocada pela atrito da meia molhada e da bota de plástico no calo que estourou no dedão do pé direito. 

Sobe barranco, caminha e depois caminha mais um pouco, abre as redes, monta o acampamento, revisa as redes, quando de repente: 

-“Ai!” 

Uma formiga picou minha cabeça e enquanto eu tirava ela, outra picou meu pescoço, e… 

-“Ai! Ai!”

 Montamos, sem perceber, o acampamento abaixo de um ninho de formigas, que um dos mateiros chamou de Tapiba, e estava chovendo insetos territorialistas vorazes em nós e assim foi durante toda a manhã.

Já sentia calafrios por todo o corpo, mas minha maior preocupação era garantir que as formigas não se aproximassem das aves e nesse dia, apesar de tudo que me afligia, eu ainda tentei ouvir algum som rouco partindo do alto, mas das copas só se ouvia as alegres Curicas-de-bochecha-laranja (Pyrilia barrabandi).

Recolhemos as redes, desmontamos o acampamento e ali findaram minhas chances, nessa expedição, de encontrar a sonhada Saripoca-de-bico-castanho, pois no dia seguinte estaríamos trabalhando em áreas nas quais a probabilidade de ocorrência dela são mínimas, ou quase nulas.

Voltei para Manaus com a certeza de que em breve essa busca terá seu fim e poderei trazer, aqui, um relato com imagens e sons deste tucaninho tão pouco conhecido da Amazônia.